Queria poder voltar atrás no tempo. A um tempo particularmente perfeito…
Um tempo, ainda que curto, mas que vivemos os quatro.
Tenho tantas saudades desse tempo que passou.
Sinto falta da minha querida R.
Sinto falta daquele tempo em que éramos os pais mais felizes do mundo.
Ainda me lembro daquele dia em que soubemos que íamos ter outra menina.
Tanto eu como o P, adorámos a ideia de ter duas meninas. Adorámos mesmo.
Se pudesse voltava atrás no tempo, a um tempo em que desconhecia a verdadeira dor.
A um tempo em que me senti verdadeiramente viva.
Queria poder voltar atrás. Queria mesmo…
terça-feira, 24 de março de 2009
sexta-feira, 13 de março de 2009
Sinto-me cansada...
Durante este período após todo o processo que eu e o P vivemos, experienciamos várias coisas. Uma delas foi ter que enfrentar todas aquelas pessoas que (sem o fazerem por mal, mas acabam por nos ferir ainda mais) entendem que o que vivemos quase parece ir às compras ao sábado de manhã (coisa banal) e dizem frases, que para nós não fazem o menor sentido. Frases como: “Sê forte, um dia tens outro”; “Agora têm que andar para a frente”; “A vida continua”; “Tens outra filha, pior seria se não tivesses nenhum”. Sabemos tudo isto. Sabemos melhor que ninguém. E por sabermos tudo isto, não nos resignamos e lutamos todos os dias com os nossos medos, com as nossas angústias, as nossas dores e vamos vivendo. Vamo-nos “arrastando”, muitas vezes, permitindo que o tempo passe, mas sem nos sentirmos (tantas vezes) verdadeiramente vivos. No entanto, andamos, vivemos, enfrentamos todos os testes que se deparam diante de nós. Sabemos que o tempo é bom aliado, mas também sabemos que temos de fazer o luto, cada um à sua maneira. Temos consciência que, talvez esta ferida nunca chegue a cicatrizar, mas sabemos que é impossível viver o resto da vida em “carne viva”. Sabemos que as pessoas, à nossa volta, muitas vezes, não sabem o que nos dizer, ou como nos confortar. Eu digo-vos, ajuda muito, estarem ali, sabermos que estão lá, mas não há palavras de conforto que nos acalmem a dor.
A verdade é que me sinto exausta. Cansada de ouvir frases que para mim não fazem o menor sentido. Cansada de tentar dizer às pessoas que nos rodeiam, o quanto estou a sofrer e ouvir palavras que me fazem fechar, que me fazem estar no silêncio, que me fazem fugir do mundo, só para não ter de ouvir o que não preciso, claramente, de ouvir.
Por tudo isto, sinto-me cansada!
A verdade é que me sinto exausta. Cansada de ouvir frases que para mim não fazem o menor sentido. Cansada de tentar dizer às pessoas que nos rodeiam, o quanto estou a sofrer e ouvir palavras que me fazem fechar, que me fazem estar no silêncio, que me fazem fugir do mundo, só para não ter de ouvir o que não preciso, claramente, de ouvir.
Por tudo isto, sinto-me cansada!
sexta-feira, 6 de março de 2009
Onde estão as nossas crianças?
Existem realidades que não damos conta da sua existência, se não formos directamente confrontados com ela.
Muitas vezes me questionei, depois do diagnóstico da R, porque nunca tinha encontrado ninguém com hidrocefalia, nos passeios, na estrada, nos hipermercados, nos centros comerciais, parques, praias, naqueles sítios a que todos vamos.
Pais com crianças portadoras de deficiência profunda e até moderada, começaram por fazer tudo semelhante a outros pais. Levaram a criança ao jardim-de-infância, aos parques, a festas de aniversário, a casa de amigos e familiares. Mas devido ao comportamento do filho e às respostas dos outros, que deixaram de convidar esses pais, sem motivo aparente, começaram a inventar desculpas para não os visitarem, estes pais e crianças deixaram de sair, de se reunirem com o mundo.
Esta é uma realidade cruel, que me entristece e me revolta.
Estas crianças já estão presas a um destino que não mereciam, pela sua própria deficiência e o mundo decide, de uma forma voluntária, aprisiona-las ainda mais. A criança se não for ajudada pela Mãe, pelo médico, pelo professor, fica aprisionado a um determinado lugar, a um determinado espaço.
Se todos tivéssemos consciência dos efeitos dos nossos actos, gestos, palavras, nestas famílias, e em particular, nestas crianças, pensaríamos, várias vezes, antes de agir.
Muitas vezes me questionei, depois do diagnóstico da R, porque nunca tinha encontrado ninguém com hidrocefalia, nos passeios, na estrada, nos hipermercados, nos centros comerciais, parques, praias, naqueles sítios a que todos vamos.
Pais com crianças portadoras de deficiência profunda e até moderada, começaram por fazer tudo semelhante a outros pais. Levaram a criança ao jardim-de-infância, aos parques, a festas de aniversário, a casa de amigos e familiares. Mas devido ao comportamento do filho e às respostas dos outros, que deixaram de convidar esses pais, sem motivo aparente, começaram a inventar desculpas para não os visitarem, estes pais e crianças deixaram de sair, de se reunirem com o mundo.
Esta é uma realidade cruel, que me entristece e me revolta.
Estas crianças já estão presas a um destino que não mereciam, pela sua própria deficiência e o mundo decide, de uma forma voluntária, aprisiona-las ainda mais. A criança se não for ajudada pela Mãe, pelo médico, pelo professor, fica aprisionado a um determinado lugar, a um determinado espaço.
Se todos tivéssemos consciência dos efeitos dos nossos actos, gestos, palavras, nestas famílias, e em particular, nestas crianças, pensaríamos, várias vezes, antes de agir.
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